No dia 25 de setembro, a Netflix lançou uma de suas produções mais ambiciosas de 2025: House of Guinness, um drama histórico que transporta o público para a Dublin e a Nova York do século XIX. A série acompanha os acontecimentos logo após a morte de Benjamin Guinness, fundador do lendário império da cerveja, quando seus quatro filhos entram em uma disputa feroz pelo controle da herança familiar. O enredo, marcado por alianças frágeis, traições e rivalidades, pode lembrar ao público o aclamado Succession, da HBO. No entanto, aqui o jogo do poder acontece em um cenário muito mais complexo: uma Irlanda dividida pela campanha da Lei Seca, agitada por tensões políticas crescentes e mergulhada em um clima social volátil. Com uma trilha sonora vibrante e uma energia dramática intensa, House of Guinness reconta uma história real de ambição e legado — e, como dizem alguns críticos, é o tipo de série que dá vontade de brindar com um pint de cerveja ao final de cada episódio.
Guinness: além da cerveja, um símbolo cultural
Ao ouvir o nome Guinness, muitas pessoas não pensam apenas na icônica cerveja escura com espuma cremosa, mas também no famoso Guinness World Records. Curiosamente, esse símbolo da cultura pop nasceu nos próprios bares irlandeses, onde clientes, entre um gole e outro, debatiam sobre “o maior”, “o mais rápido” ou “o mais pesado” do mundo. Para estimular essas conversas e atrair ainda mais clientes, os donos da cervejaria começaram a distribuir pequenos livretos com respostas a essas perguntas — e assim nasceu um dos anuários mais populares do planeta.
Mas por trás do rótulo famoso existe uma história ainda mais fascinante. A cerveja Guinness surgiu de um acidente criativo: o fundador Arthur Guinness teria queimado parte do malte sem querer, criando um novo sabor encorpado e intenso. A fórmula, considerada arriscada na época, se tornou um sucesso imediato e transformou a marca em um símbolo nacional da Irlanda. Seu neto, Benjamin Guinness, levou esse legado a outro patamar: expandiu a produção, construiu uma das maiores cervejarias do mundo e fez da família Guinness uma das mais influentes e ricas do país. A partir daí, a marca deixou de ser apenas uma bebida — tornou-se um emblema de identidade, orgulho e poder irlandês, capaz de atravessar séculos e fronteiras.
A verdadeira história da família — rivalidades, escândalos e segredos
Com a morte de Benjamin Guinness, a fortuna e o império cervejeiro que ele construiu se tornam o centro de uma disputa amarga entre seus quatro filhos: Arthur, Edward, Anne e Ben. Todos recebem uma parcela considerável da herança, mas também um fardo pesado — a responsabilidade de manter viva uma das empresas mais poderosas da era vitoriana.
O mais velho, Arthur, acredita que a liderança deveria ser naturalmente sua. Ambicioso e confiante, ele sonha em comandar a cervejaria com autoridade absoluta. No entanto, o testamento do pai reserva-lhe uma surpresa amarga: ele precisa dividir o controle com seu irmão Edward, mais jovem, calculista e estrategista, cuja visão pragmática do negócio entra em choque com a impulsividade de Arthur. A tensão entre os dois, marcada por uma mistura de cooperação forçada e ressentimento crescente, forma o núcleo dramático da série.
Enquanto isso, Anne, a única filha, enfrenta as limitações impostas às mulheres do século XIX. Impedida de participar diretamente das decisões corporativas, ela canaliza seus recursos para causas sociais e filantrópicas, desafiando as expectativas da época. Já o caçula, Ben, luta contra seus próprios demônios: dependência química, instabilidade emocional e o peso esmagador do sobrenome Guinness.
Essas trajetórias cruzadas transformam House of Guinness em muito mais do que um simples drama de herança. Elas revelam os conflitos internos de uma família dilacerada por poder, identidade e expectativas sociais, ao mesmo tempo em que refletem a dura realidade da Irlanda vitoriana — um país dividido por classes, crises políticas e profundas desigualdades.
Ivana Lowell: a herdeira que transformou a memória familiar em ficção
A gênese de House of Guinness nasceu de um momento inesperado. Durante um encontro familiar no Castletown House, uma mansão histórica restaurada por seu primo Desmond Guinness, a escritora Ivana Lowell — descendente direta da dinastia Guinness — assistia distraidamente a um episódio de Downton Abbey quando teve um estalo: “A nossa história é muito mais interessante — e, acima de tudo, real.” A partir dessa percepção, Lowell começou a rascunhar o que se tornaria a base da série: um roteiro de cerca de 20 páginas que dramatizava as intrigas, os escândalos, as tragédias e as conquistas de sua própria família.
A conexão de Lowell com esse legado vai muito além da cerveja. Sua mãe, Caroline Blackwood, foi uma romancista célebre, e sua avó, Lindy Guinness, era uma das famosas “Três Irmãs Brilhantes” da alta sociedade britânica dos anos 1920. Crescer em meio a essa linhagem significava herdar não apenas um sobrenome poderoso, mas também um universo de memórias complexas, histórias não contadas e feridas ainda abertas. Para Lowell, transformar tudo isso em narrativa televisiva era uma forma de dar voz ao passado — e, ao mesmo tempo, de reconstruir a identidade da família sob um novo olhar.
A participação direta de uma herdeira legítima na criação do projeto dá à série um peso emocional e histórico raro. Cada diálogo, cada escolha estética e cada conflito retratado em House of Guinness carrega um eco da vida real, fazendo com que a linha entre ficção e realidade se torne propositalmente tênue.
Trauma, identidade e humor negro — a escrita como cura
Para Ivana Lowell, escrever House of Guinness não foi apenas um exercício criativo — foi também um processo profundamente terapêutico. Sua infância foi marcada por uma sucessão de perdas e traumas: a morte repentina do padrasto por um ataque cardíaco, a trágica overdose da irmã aos 18 anos e a presença de uma mãe alcoólatra e emocionalmente distante. Durante anos, Lowell acreditou que seu pai era o pianista Israel Citkowitz, mas descobriu mais tarde que seu verdadeiro pai era Ivan Moffat, roteirista e amante de sua mãe.
Essas revelações dolorosas se transformaram em combustível criativo. Ao revisitar sua história familiar, Lowell encontrou na escrita uma forma de entender, perdoar e reconstruir. “Quando criança, você não tem mecanismos para lidar com a dor. Quando adulto, você tenta entender: ‘Como tudo isso aconteceu?’ Escrever me permitiu olhar para trás com empatia e, de certa forma, voltar ao lado da minha mãe”, revelou em entrevistas.
Esse olhar pessoal também explica o tom singular da série — um equilíbrio entre tragédia e ironia, dor e humor. A tradição do humor negro era parte intrínseca da vida dos Guinness: diante das maiores adversidades, a família reagia com sarcasmo e risadas amargas. Lowell traz essa mesma energia para a tela, transformando dramas profundos em momentos de humanidade crua. O resultado é uma narrativa que, mesmo mergulhada em dor, nunca perde a capacidade de rir de si mesma — um espelho honesto da vida real.
Entre realidade e ficção — o impacto de House of Guinness
Embora House of Guinness compartilhe semelhanças temáticas com a série americana Succession — herdeiros brigando pelo controle de um império familiar, segredos revelados e alianças desfeitas — a produção da Netflix vai além ao mergulhar em um contexto histórico muito mais turbulento e complexo. A Irlanda do século XIX era um país marcado por conflitos políticos, desigualdade social e movimentos de temperança que tentavam banir o consumo de álcool. Ao situar a disputa dos Guinness nesse cenário, a série não se limita a contar a história de uma família rica: ela oferece um retrato amplo de uma sociedade em transformação.
Essa fusão de drama íntimo e panorama histórico é o que torna House of Guinness tão poderosa. A luta pelo poder não é apenas interna — entre irmãos —, mas também externa, travada nas ruas, nos salões políticos e até nos mercados internacionais. A série questiona, com sutileza, o preço da ambição e o custo humano do império. Ao mesmo tempo, a inclusão de temas contemporâneos como identidade, saúde mental e papel da mulher dá à produção uma relevância que transcende o período retratado.
A recepção crítica tem refletido essa profundidade. Especialistas elogiaram a “mistura precisa de drama familiar e comentário social”, destacando também a trilha sonora vibrante e a direção sofisticada. Muitos críticos consideram a série um exemplo de como o gênero histórico pode ser reinventado para dialogar com questões modernas — e de como o passado, quando contado com honestidade e emoção, continua a falar diretamente ao presente.
Conclusão
House of Guinness é muito mais do que um drama sobre a sucessão de uma cervejaria: é uma exploração profunda de poder, identidade, legado e redenção. Ao transformar sua própria história familiar em narrativa televisiva, Ivana Lowell oferece ao público não apenas um relato íntimo sobre herdeiros em conflito, mas também um retrato vívido da Irlanda em um dos períodos mais decisivos de sua história.
O que começa como uma disputa pela herança se torna, pouco a pouco, uma metáfora poderosa sobre a formação de identidades nacionais, sobre como impérios são construídos — e a que preço. Ao revisitar os triunfos e traumas de seus antepassados, Lowell transforma a saga dos Guinness em uma história universal sobre ambição e pertencimento, mostrando que por trás de cada império existe uma teia complexa de dores pessoais e escolhas morais.
No final, House of Guinness não convida apenas o espectador a assistir: convida a refletir. Sobre família. Sobre legado. Sobre o poder de contar histórias. E, acima de tudo, sobre como o passado continua a moldar o presente — um gole de cada vez.
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