Se você acha que já viu animações infantis exageradas, prepare-se: Os Pestes (The Twits), novo filme da Netflix baseado na obra de Roald Dahl, leva o “nojentinho” ao extremo — e não no bom sentido. Dirigido por Phil Johnston (de Detona Ralph), o longa aposta pesado em piadas de pum, vômito e meleca, acreditando que esse tipo de humor basta para entreter o público. Mas a verdade é que, passados poucos minutos, essas gags já parecem recicladas e forçadas, como se o roteiro tivesse sido escrito por um grupo de pré-adolescentes empolgados com o próprio mau gosto. É um exemplo claro de como o “grosseiro” pode rapidamente virar apenas chato.
A narrativa, que tenta costurar críticas sociais, aventuras de órfãos e sátiras políticas, se mostra um verdadeiro emaranhado de ideias mal amarradas. O filme parece não saber exatamente o que quer ser: em alguns momentos tenta tocar o coração com lições sobre empatia e família encontrada; em outros, aposta em caos visual e escatologia pura. O resultado é uma história desconexa, com ritmo atropelado e personagens que surgem e somem sem muito propósito. A sensação é de estar assistindo a vários episódios colados de uma série que foi cancelada no meio do caminho — o que, curiosamente, reflete parte do histórico da produção do filme.
Além disso, os protagonistas infantis Beesha e Bubsy — claramente inseridos para dar ao público alguém com quem simpatizar — são mal desenvolvidos, quase genéricos. Suas personalidades são superficiais, suas decisões pouco convincentes, e a relação entre eles se apoia em clichês já vistos à exaustão em outras animações. Enquanto isso, os coadjuvantes bizarros — como sapos cantores e macacos que vomitam filhotes — acabam roubando a cena, mas sem dar profundidade real à história. O filme tenta nos fazer torcer pelos órfãos, mas falha em construir qualquer apego verdadeiro.
Outro problema que salta aos olhos — literalmente — é a estética do filme. A direção de arte abraça o “feio” com tanto entusiasmo que o visual se torna, em muitos momentos, desagradável de assistir. Sim, a ideia era fazer algo “grotesco e estilizado”, mas há uma linha tênue entre o ousado e o simplesmente repulsivo. As texturas exageradas, os ambientes sujos, os personagens mal-acabados — tudo soa como uma provocação visual constante, que cansa mais do que diverte. Faltou equilíbrio entre criatividade e bom gosto.
Por fim, o filme comete um dos pecados mais comuns (e irritantes) em adaptações: tenta enfiar lições morais onde elas não cabem. A obra original de Dahl era cínica, curta e absurdamente cruel — e funcionava bem assim. Os Pestes, por outro lado, parece desesperado para entregar uma mensagem edificante sobre “como todos merecem amor” e “a importância da verdade”, como se isso pudesse equilibrar a overdose de piadas escatológicas. A tentativa soa forçada, quase infantilizada, e quebra completamente o tom ácido que deveria nortear a história.
No fim das contas, Os Pestes é uma animação que ousa sair do lugar-comum, mas acaba tropeçando no próprio excesso. A mistura de humor grotesco, crítica social e aventura infantil poderia render algo memorável, mas o resultado é uma obra visualmente cansativa, narrativamente bagunçada e com personagens pouco cativantes. Há boas intenções — como o esforço em passar mensagens sobre empatia e união —, mas elas se perdem em meio ao barulho. Não é um desastre completo, mas também está longe de ser uma adaptação marcante de Roald Dahl.
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