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Com estreia marcada para 22 de janeiro nos cinemas brasileiros, A Única Saída (No Other Choice) é o novo filme do consagrado diretor sul-coreano Park Chan-wook, conhecido por obras como Oldboy e A Criada. Misturando suspense, humor negro e crítica social, o longa chega ao país cercado de expectativa após conquistar seis prêmios no Blue Dragon Awards (incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz), representar a Coreia do Sul no Oscar e provocar debates intensos em sua terra natal.
Protagonizado por Lee Byung-hun (Round 6) e Son Ye-jin, o filme acompanha um gerente demitido que, após mais de um ano desempregado, decide eliminar os rivais que disputam a mesma vaga de emprego.
A campanha no Brasil tem destacado o humor sombrio, o elenco estrelado e o estilo provocador do diretor. Não é só um thriller — é um retrato desconfortavelmente engraçado de um sistema onde, para chegar à mesa, talvez você precise tirar todos os outros da fila.
Atenção: o trecho a seguir contém spoilers parciais da trama.
“No Other Choice”: um título com três camadas de desespero
O título original em coreano, Eojjeolsuga eobsda (literalmente “Não havia outra escolha”), é mais do que uma frase dramática — ele encapsula com precisão o dilema moral, social e existencial do protagonista. O filme pode ser lido em três níveis de sentido, todos eles atravessados por um mesmo sentimento: impotência diante da brutalidade do sistema.
Primeira camada: o desemprego inevitável.
Yoo Man-su (vivido por Lee Byung-hun) é um técnico altamente qualificado na indústria de papel. Durante 25 anos, dedicou-se com ética e paixão ao trabalho na Sunyang Paper, empresa onde construiu sua vida e sustentou sua família. Com uma casa espaçosa, dois filhos, dois cães dourados e uma esposa elegante, sua rotina representava o sonho da classe média coreana.
Até que, em um dia aparentemente normal, a família recebe um presente da empresa: uma refeição de enguias e uma carta de agradecimento. Era o aviso de demissão. A fábrica havia sido comprada por uma empresa americana, e cortes em massa seriam inevitáveis. Man-su, parte do “boi de carga” do meio corporativo, não escapou da lista.
A partir daí, tudo desmorona. Em meio à recessão, à pressão das dívidas e à perda de status, ele tenta manter a compostura: vende o carro, cancela as aulas de tênis da esposa, corta serviços de streaming, entrega os cachorros à sogra e até considera vender a própria casa. No início, promete encontrar um novo emprego em três meses. Um ano depois, segue desempregado. O sistema o empurra contra a parede — e ele começa a perder o ar.
Segunda camada: o assassinato como saída.
Man-su está esgotado — emocional, física e financeiramente. Quando surge uma vaga em outra fábrica de papel, ele aposta tudo: entrega o currículo, espera horas e chega ao ponto de se ajoelhar na porta do banheiro para implorar ao gerente. A resposta? Humilhação. O gerente Choi Seon-chul (interpretado por Park Hee-soon) ri da sua postura e o despacha como se ele fosse invisível.
Sem alternativas, Man-su começa a maquinar. Segue o gerente pelas ruas, com um vaso na mão, pronto para matá-lo. Mas na hora H, ele para. Não por arrependimento — e sim por clareza. Um único cadáver não bastaria. Se há uma vaga, há concorrência. E ele precisa garantir que não reste ninguém mais qualificado.
É aí que seu plano sinistro ganha corpo. Publica um anúncio de emprego falso, atrai candidatos do setor papeleiro e analisa seus currículos um a um. Escolhe dois alvos principais: Goo Beom-mo (Lee Sung-min), técnico premiado, agora alcoólatra e desempregado há mais de um ano; e Ko Si-jo (Cha Seung-won), ex-gerente que hoje trabalha em uma loja de sapatos para sustentar a filha pequena.
Man-su os observa, estuda seus hábitos, invade suas casas, elimina um a um — até que possa voltar sua atenção ao último obstáculo: o gerente que o rejeitou. Nesse processo, o trabalhador modelo vira algo que jamais imaginou: um assassino meticuloso e desesperado. Tudo isso, em nome de uma coisa só — voltar ao jogo.
Terceira camada: o dilema moral do casal.
Yoo Man-su e sua esposa, Mi-ri (Son Ye-jin), formam um casal aparentemente sólido. No começo da crise, enfrentam juntos o desmoronamento do conforto familiar. Ele insiste que tudo vai se resolver em três meses. Ela acredita — ou prefere acreditar. Mas quando o tempo passa, e as entrevistas se tornam cada vez mais escassas, a autoestima dele desmorona, e a cumplicidade deles se transforma em silêncio.
Mi-ri, acostumada com uma vida de conforto e aparência, tenta se adaptar: aceita um trabalho como assistente em uma clínica odontológica. Lá, desperta o interesse do jovem e bem-sucedido dentista chefe. Enquanto isso, Man-su assiste tudo de longe — inseguro, envergonhado, humilhado. Um homem desempregado e frustrado, em contraste com um rival bonito, rico e cheio de futuro. A diferença é esmagadora. E a dúvida começa a corroer: será que sua esposa ainda o vê como homem?
O mais perturbador, porém, é que Mi-ri descobre o que ele está fazendo. Descobre a verdade — os crimes, o desespero, a podridão. Mas não denuncia, não questiona, não se afasta. Ela escolhe o silêncio. Não por medo. Mas porque, no fundo, deseja voltar à antiga vida: jantares, cinema aos domingos, roupas novas, tênis e pilates, passeios de carro, uma rotina de classe média confortável.
Essa cumplicidade silenciosa entre os dois não é amor, nem lealdade. É sobrevivência social. É uma parceria de decadência. Um pacto sutil para manter as aparências e recuperar o que foi perdido — ainda que para isso seja preciso cruzar a linha do aceitável.
Como escreveu Erich Fromm em A Sociedade Sã, “a felicidade, na lógica do consumo moderno, não é mais aquilo que alguém é ou faz — mas sim o que possui e consome. O prazer passou a ser definido como o máximo de consumo possível, com o mínimo de esforço.” Para ele, “a alegria das classes altas se tornou o modelo para aqueles que não podem pagar por ela, mas desejam desesperadamente imitá-la.”
A origem literária e os 15 anos de espera
No Other Choice é inspirado no romance “The Ax”, de Donald E. Westlake, publicado em 1997. A obra acompanha um gerente demitido de uma fábrica de papel que, após 18 meses desempregado, decide eliminar fisicamente os sete candidatos que disputam os cargos que deveriam — segundo ele — ser seus. É uma fábula cínica sobre o desespero no mercado de trabalho, escrita com humor ácido e crítica social afiada.
Westlake escreveu o livro como uma resposta ao mundo corporativo pós-Reagan e às ilusões do “emprego vitalício”. Mesmo em tempos de crescimento econômico, os funcionários continuam descartáveis. A mensagem era clara: o desemprego não é exceção — é a nova regra.
O livro já havia sido adaptado para o cinema por Costa-Gavras, no filme francês Le Couperet (O Corte, 2005). Mas Park Chan-wook, fascinado pela obra, quis fazer uma nova leitura, enraizada no contexto coreano contemporâneo. Desde 2009, ele tentava desenvolver o projeto, que foi adiado diversas vezes por falta de financiamento. Somente com o apoio de Lee Byung-hun e Son Ye-jin, o filme finalmente saiu do papel.
A revelação mais cruel
Perto do final do filme, quando vemos Yoo Man-su finalmente conquistar o cargo tão desejado, algo se torna assustador de verdade. Esse personagem, na essência, é o retrato da alienação do ser humano no sistema de produção moderno.
Seus conhecimentos técnicos foram substituídos. Sua ligação com o próprio trabalho se desfez. Ele foi separado não só da função que exercia, mas do sentido do ato de trabalhar.
Esse é o ponto mais transparente, mais inquietante e mais devastador de todo o filme: alguém que mergulha na escuridão da natureza humana, afunda sem freios num dilema moral, sacrifica tudo para “chegar à mesa” — e no fim, descobre que ele mesmo é o prato servido.
Como resumiu um espectador: “O trabalhador do leste asiático, ao ser demitido, não pensa em virar a mesa, mas em tirar os outros da fila. E quando finalmente chega sua vez, encontra só comida pré-pronta.”
Essa é a parte mais dolorosa, mais verdadeira e mais indigesta da história.
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